A pelagem manchada, uma pata ferida. Seu lindo rosto felino não lhe deu o prazer de um último olhar, e com forças da própria natureza pos-se a correr.
O voraz lobo observa, foi sem dúvida sua melhor empreitada. O doce da tenra carne ainda saliva sua boca. Mas o alimento de seu instinto predador é o sabor da caçada. O jovem animal agora livre e quase fora de seu alcance é ainda mais atraente.
Sem dúvida sua musculatura de lobo e seus dentes afiados podiam capturar a apetitosa raposa quando quisesse. Ele observa seguro, deitado em seu território, ele observa.
A raposa cresce, e salta aos olhos da matilha. Sim, ele poderia te-la de volta quando quisesse, se outra mandíbula antes não o fizer. Agora armado às quatro fortes patas ele observa, e da matilha um filhote se arrisca. Ele mal sabe voar, mas ferida a jovem é presa fácil, e o desajeitado vira latas tem mais sorte do que merece. O velho lobo dispara no encalço, e imediato degladia o pelado filhote. Caninos brancos se cravam, e por um momento a raposa tem a opção. Ela conhece a força daquela bocarra, e sabe que o velho lobo vai machuca-la novamente.
Velhos lobos são difíceis de mudar.
Só se tornam mais velhos,
e mais lobos.
C.

Capa do wolfheart - moonspell
Ontem à noite
Ontem à noite, depois da sua partida definitiva, fui para aquela sala do rés-do-chão que dá para o parque, fui para ali onde fico sempre no mês de junho, esse mês que inaugura o Inverno. Tinha varrido a casa, tinha limpo tudo como se fosse antes do meu funeral. Estava tudo depurado de vida, isento, vazio de sinais, e depois disse para comigo: vou começar a escrever para me curar da mentira de um amor que acaba. Tinha lavado as minhas coisas, quatro coisas, estava tudo limpo, o meu corpo, o meu cabelo, a minha roupa, e também aquilo que encerrava o todo, o corpo e a roupa, estes quartos, esta casa, este parque. E depois comecei a escrever...
(Marguerite Duras)
Textos Secretos, Quetzal Editores, 1992 - Lisboa, Portugal tradução de Tereza Coelho.